ORLANDO RIBEIRO

O aparecimento de uma revista portuguesa de Geografia não carece de largos comentários, de tal modo e há tanto tempo a sua falta se fazia sentir. Por isso também este desígnio estava há muito entre os planos de trabalho do Centro, de Estudos Geográficos de Lisboa. Graças ao prestimoso auxílio da Fundação Calouste Gulbenkian, que tanto se esforça em renovar o ambiente científico nacional, e a uma conjugação de boas vontades dos colaboradores daquele agrupamento de geógrafos, pode agora realizar-se, em condições de eficácia, um projecto há tantos anos amadurecido. Mas, se a alguns apenas cabem as tarefas de execução, as páginas da revista estão abertas a todos os que, ente nós, cultivem estudos geográficos ou matérias afins, na margem, necessariamente imprecisa, em que as Ciências se tocam, se recobrem e se confundem.

A Geografia, situada na fronteira das Ciências naturais e sociais, nutre-se, como outros ramos destes dois sectores do conhecimento, da investigação no espaço e no tempo. É o estudo de certos fenómenos, próprios de certas áreas e de certas épocas, que lhe permite elevar-se à compreensão geral do globo, da sua natureza e das relações com os grupos humanos que nele habitam e labutam. Uma revista de Geografia publicada em Portugal não pode deixar de consagrar a temas portugueses parte essencial do seu conteúdo. Matéria vasta, porquanto a civilização que se elaborou neste pais marca com o seu cunho terras de quatro partes do mundo. O título evoca tanto a posição europeia e mediterrânea de Portugal como a sua projecção no globo, por intermédio de relações marítimas com as ilhas atlânticas, o Brasil, a África, a Índia e outros lugares do Oriente. Históricos ou actuais, estes aspectos são relevantes na evolução humana do Mundo, cuja geografia não seria a mesma se as navegações chinesas, começadas umas dezenas de anos antes da expansão portuguesa, tivessem prosseguido e tomado ao revés o caminho marítimo da Índia. Ciência de aplicação regional, que procura expressões locais, distribuição em espaços, relações complexas e diversamente estabelecidas dentro deles, a Geografia encontra na riqueza e na variedade do seu objecto a maior dificuldade para assentar com firmeza os seus conceitos teóricos fundamentais.

A Geomorfologia cíclica, constituída em torno da ideia clássica de evolução necessária, irreversível e universal, defronta-se hoje com a Geomorfologia climática, que procura, dentro de grandes conjuntos regionais, processos e formas próprias de evolução do relevo. Oposição que exprime, afinal, duas faces do mesmo problema e dois caminhos de o abordar. O estudo do relevo terrestre, nascido nos climas temperados, elaborando principalmente com a experiência deles os seus conceitos fundamentais e o que se supôs ser a norma do globo, com o enriquecimento posterior da experiência das regiões tropicais e das regiões polares, deslocou, ampliando-a, a perspectiva inicial. Da mesma forma a teoria clássica que interpretava a circulação atmosférica pela ascensão do ar quente na "chaminé equatorial" é contrarrestada por novas hipóteses que tudo fazem derivar da corrente de ar frio de origem polar que flui nas altas camadas da atmosfera (jet stream). O aquecimento equatorial e o arrefecimento polar foram sucessivamente chamados a explicar o mecanismo geral da atmosfera, o jogo de massas de ar donde derivam o tempo e o clima: a "chave" dum conceito universal estará assim em fenómenos específicos de certo ambiente, que se entrelaçam para dar as mais complexas correlações, desde a escala zonal à regional e à local. Que dizer das dificuldades com que esbarraram todas as tentativas de constituir uma Geografia humana geral?! Ciência do concreto, a Geografia depara-se, em todos os sectores do seu vasto horizonte de pesquisa, com realidades complexas, entrelaçamentos de condições naturais e ajustamentos humanos que se exprimem na variedade de paisagens, às vezes aparentadas e afins, mas nunca construídas dentro do mesmo padrão. Esta diversidade justifica a parte preponderante que tem na Ciência geográfica a investigação regional e até local.

Mas o que dá o tom científico a pesquisas deste género são tanto o rigor e objectividade na recolha, como e argúcia na análise, a arte subtil de manejar os cambiantes da elaboração, o vigor e clareza da síntese. A revista reserva assim um lugar a artigos teóricos e a preocupações metodológicas, por onde, mais ainda do que pelo acúmulo de factos, as ciências abrem novos horizontes de pesquisa. A exemplo do magistral ensaio com que se inicia este número, estimaríamos que os grandes mestres do pensamento geográfico actual nos Honrassem com a sua colaboração. A eles principalmente se ficará a dever o propósito de fazer de Finisterra não um lugar isolado da Ciência mas uma janela aberta pura o mundo - que, sendo afinal o campo de trabalho de todos nós, é também o sítio do nosso encontro. Ao assumir a pesada responsabilidade de preparar a primeira reunião de geógrafos realizada depois da guerra (XVI Congresso Internacional de Geografia, Lisboa, 1949), o Centro de Estudos Geográficos marcou uma orientação de que tem procurado nunca se afastar.

O conhecimento racional, herdado dos Gregos, enriquecido com a reflexão, a experiência e as descobertas das "grandes épocas criadoras", do Renascimento ao Romantismo, é hoje um empreendimento aberto à participação de todos os povos civilizados. Notando como é vário o mundo e os homens diversos, ensinando a "pensar em conjunto" (RATZEL.) a fisionomia dos lugares, a Geografia, talvez mais do que qualquer outra Ciência, conduz a uma visão objectiva e equânime de graves e angustiosos problemas dos nossos dias: conflitos de gente e de economias, profundas desigualdades dos espaços humanos, uns prósperos e progressivos, outros inadaptados relativamente a formas da vida moderna e que esperam a redenção de taras tradicionais, que mantêm as terras pobres e geram a miséria entre os homens. Nisto reside - e sempre assim o viram os mestres da Ciência geográfica - a face útil da Geografia. Geografia aplicada, como é uso dizer-se hoje: mas aplicada antes de tudo ao conhecimento dos lugares, porque nada do que o faça progredir deixará de estar na base, quando convenientemente aproveitado, de planos de desenvolvimento regional e de melhor arranjo do espaço, de fomento e de estimulação económica de agrupamentos nacionais ou regional desfavorecidos. Neste sentido ainda uma revista portuguesa de Geografia encontra ampla matéria de estudo nos desajustamentos do potencial humano e económico do país àquilo que se consideram necessidades vitais da gente de hoje. Servindo a Ciência, cremos ser necessário acrescentar a nossa convicção de servir também - e da melhor maneira - a terra onde trabalhamos.

Nascida como um elo entre a História natural e a História humana, a Geografia beneficiou de métodos que estas ciências haviam afinado. Ciência de observação: observação de formas fugitivas, como as do tempo, cíclicas como as das estações do ano, outras aparentemente fixas mas movediças no espaço de gerações, como todas as que concernem a actividade humana, ou nos longos intervalos do quadrante geológico, apenas acessíveis ao espírito e reconstituídos pela imaginação. Elaborando dados de vária origem para os exprimir duma maneira espacial, atenta ao repartimento e à correlação dos fenómenos, à pesquisa de encadeamentos locais e à definição de tipos regionais, a Geografia foi largamente penetrada, e em todos os seus ramos, pela ideia de evolução: evolução do relevo, variações do clima e, com ele, dos solos e do tapete vegetal, decurso das formas de civilização, dos seus instrumentos de "domínio da natureza e de organização do espaço" (GOUROU). As imagens do actual, únicas que capta a observação do geógrafo, sugerem sempre, como encadeamento interpretativo, uma sucessão cinemática. O presente provém do passado e é apenas um momento do devir telúrico, que durará o que durar o próprio Globo.

Como o geólogo, que o acompanha nas "conversações com a Terra" (HANS CLOOS), o geógrafo prescruta toda esta obscuridade que se escoa no tempo: o tempo da terra, do ar e da vida no ambiente natural, e ainda o tempo das gerações, rápido e mutável nos nossos dias, mensurado na história, incomparavelmente lento na "emergência" da humanidade e na aurora das mais antigas civilizações. Desde as montanhas que se levantam dos geosinclinais, com a pele húmida e as entranhas ardentes do seu momento genésico, desde a erosão que nivela, implacável, as estruturas mais alterosas, até às transformações que se vêem numa grande cidade moderna ou num lugar onde se concentram indústrias poderosas, tudo à superfície do Planeta flui, envelhece e se renova. A Terra, o tempo e o homem: na interferência destas três incógnitas, dissipando o mistério com as claridades da razão, compreende-se que a Geografia nascesse com a própria Filosofia e se desenvolva em cada surto do espírito do Ocidente. Na altura em que o Homem liberta, pela desintegração da matéria, energias duma insuspeitada potência, e consegue, escapando ao campo da gravitação terrestre, olhar de fora a sua morada, a Geografia conduz a grandes temas de meditação, quer sobre os mecanismos complexos do mundo físico, quer sobre as variedades do destino humano - aquela sorte de fatalidade que, paradoxalmente, pode tornar a gente resignada na pobreza e ávida e insatisfeita na abundância.

O mundo está agora enleado nas malhas dum equipamento técnico sem precedentes na história. Os benefícios que isto traz para o próprio conhecimento do Globo são cada vez mais evidentes e a Geografia deles largamente está aproveitando. Mas, manejando tão poderosos instrumentos, o homem tem de precaver-se das tentações de os virar contra si próprio. Cada vez é mais necessário que a gente de reflexão se aplique com argúcia em alcançar uma perspectiva de compreensão, de tolerância e de equidade, de que, no meio de perigosas incertezas e de terríveis antinomias, o nosso tempo tanto carece. Contribuir para ela é, porventura, a maior utilidade da Geografia. Pelo exercício de uma permanente meditação sobre a natureza, os seus estímulos e as suas barreiras, reduz o homem ao modesto papel de habitante num mundo onde não é o único senhor - eleva-o acima de si próprio para melhor se poder ver e julgar. Como outras Ciências com que partilha um sector essencial do seu conteúdo, a Geografia, servindo o conhecimento, serve também ideais de Humanismo de que o espírito não pode prescindir.

(Finisterra, Volume I, nº1, Lisboa 1966, pp.5-9)